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Sentido da História

Tive o privilégio de receber o mais novo lho da minha querida professora, Dona Zilda Andrade, após de oito décadas vividas. Creio que para a medicina seria uma tarefa árdua explicar, mas, para o amor não. Livros são lhos que os autores dedicam aos seus leitores. Precisa-se de pares para da criação da obra de arte e quem se dispõe a desfrutá-la. É uma prazerosa inspiração abraçando uma cumplicidade. A grandeza do leitor ao sair da sua área de conforto compartilhando juntamente com o autor seus sentimentos, é um gesto de nobreza imensurável. Quem escreve se doa e quem lê se entrega. O momento da leitura torna-se um presente que não será passado se for sempre lembrado. Na vivência transcrita inclui de um lado uma história sorvida e do outro a leitura e seus encantos. O livro da minha querida educadora e segunda mãe (na minha época era assim que víamos nossas professoras), amiga do coração, passou por esses últimos dias, por uma carinhosa sabatina de uma degustação. O livro, cujo nome é “O poema mostra o sentido da história”, me permitiu uma interpretação singular onde traduzo como, “histórias dando sentidos aos poemas”. O passado dessa grande educadora, no exercício da multiplicidade como mulher, passa pelos estágios de mãe, educadora, avó e lha. Isso pode ser revivido nos pedaços, traços, rimas dos poemas e nos hinos de amor enaltecendo as raízes da vida numa passagem de tempo. Mostra-se que Dona Zilda não deixou a vida passar, passa por ela deixando marcas e exemplos com valores agregados e solidificados. Fui seu aluno da segunda e terceira séries no grupo escolar Padre Machado. Curiosamente escrevendo essa crônica lembrei-me que ganhei um puxão de orelhas dessa adorável criatura. Eu e meu primo Hércules resolvemos tirar a tinta da grama verde com nossas camisas brancas durante o recreio numa luta. Creio que a informação passada para ela foi que era uma briga. Ao chegar ao ringue gramado e nos vendo abraçados e rindo, só para não perder a viagem, nos levou para a “cadeira do pensamento” segurando nossas orelhas. Confesso-lhes que segurou apenas, não apertou. A “bronca” mais educativa do que punitiva, não passou de: vocês não têm dó de suas mães que vão lavar as blusas imundas de vocês não? Na hora da farra nem pensamos. Depois do alerta, a consciência pesou. Ela sempre se preocupou para que valorizássemos as pessoas que nos ajudavam. Talvez ela nem se lembre desse fato, mas ganhei dela sim um puxão de orelhas mais brando e carinhoso de todos os já recebidos. Os deferidos por minha mãe, não só pegavam minhas orelhas, torciam-nas até surgir a cor vermelha de intensidade proporcional à ardência. Durante as aulas com embates entre meninos contra meninos, como seu aluno, eu me sentia orgulhoso quando ela me chamava para os desempates das famosas disputas. Minha maior adversária era com frequência a linda Wanda Fernandes. Lamentavelmente virou precocemente uma estrela com a luz de muitas saudades. Para nós era Wandinha e foi a minha primeira namorada. Creio que ela mesma não sabia desse namoro unilateral. A primei- ra vez que ela foi a minha casa, numa noite linda de lua cheia, ela me confessou que amava a lua. Estávamos na varanda da fazenda admirando a encantadora lua cheia quando ela me deu um beijo no rosto e correu. A timidez provo- cara atitudes distintas em duas inocentes criaturas. Uma correu e a outra cou paralisada. Pureza pura que vale muito ser lembrada. Ter ganhado um beijo afetou meu coração apaixonado e por isso talvez me julgasse um namorado. Uma grande tristeza veio com notícia de sua morte num acidente envolvendo seu consagrado grupo de teatro. Imediatamente olhando para o céu constatei que uma lua cheia linda viera para buscá- la para o céu. Deixou rastros de momentos vividos e o brilho de uma saudade. Éramos os meninos da dona Zilda. Eu me sentava ao lado do Ataíde que muitos conhecem com “Zacarias da Luna” do qual tenho orgulho de tê-lo como amigo até os dias atuais. Sempre foi uma grande pessoa embora continue baixinho. Dona Zilda transcreve em seu livro todo o carinho praticado ao longo de sua vida para com sua família, alunos e pessoas que tiveram e têm o privilégio de conviver com ela. A disponibilização para a leitura desse seu trabalho dará a oportunidade para as pessoas, conhecê-la mais e uma maior aproximação dos valores dessa educadora. Nas estrofes dos poemas e hinos refletem as verdadeiras traduções de carinho pelo que fez e por tanto que faz. Amante de nossa terra após essas oito décadas exala intensamente o perfume da sabedoria. Tem a humildade ao abrir seu coração dedicando a nós, privilegiados leitores, um presente da sua nobreza. Dona Zilda Andrade, na verdade é uma or de nossa terra que merece honras, gratidão e muito carinho. Em seu coração carregado de valores e princípios será sempre a minha querida professora, Dona Zilda. Para aqueles que não a conhecem, leiam o seu livro e saberão como é a poetiza e permanente educadora, Dona Zilda de Brumadinho.