/CÉU DE BRUMADINHO

CÉU DE BRUMADINHO

Sempre tive um carinho especial com céu de Brumadinho. Confesso-lhes, bairrismo à parte, é um dos céus mais lindos que conheço. Contar infinitos pontos brilhantes de paixões, permanentes ou cadentes é um privilégio desde criança, adolescência e até o momento presente. Nesses últimos dias, acometido de um vazio imenso no peito, tento buscar nele, argumentos para confortar a mim e aos que aqui ficaram fora do alcance de um algoz desastre travestido de barragem. Temos agora um céu com mais estrelas requisitadas por Deus. Partiram e deixaram nossa terra soterrada por um inesquecível rastro de dor. Tento reconsiderar fatos mas não entendo nada. Tudo se embaralha e não há lógica capaz de explicar, mesmo na mais brilhante das mentes ou traduzir em libras ou num indecifrável texto a razão de todo esse desfecho. Busco respostas e não as encontro. No meu coração uma pergunta que não cala: por que tantas vidas se foram de uma só vez? Qual a mensagem a ser decodificada deixada por esse legado? Como será o nosso jeito de viver e sorrir a partir de agora? Mesmo se fosse uma só vida de um brumadinense, estava sempre tão próxima como se fora um nosso parente. Ontem ou dias atrás, eu via e cumprimentava uma pessoa que não sabia o nome. Hoje não posso mais sequer desejar-lhe um bom dia. Se eu não a tivesse tratado com um carinho digno dias atrás, teria motivos a mais além do pesar da falta. O nosso último e fortuito encontro não anunciava uma despedida. Acreditamos que viveremos para sempre e sempre ignoramos a importância da vida a cada segundo, minuto ou dia. Nascemos para um dia virar pó, mas não deu tempo. Para muitos a lama chegou antes. Achar culpa- dos ao longo dos tempos é fácil. Salvar os inocentes e desavisados agora, a hora já passou. Saber que houve negligências não há dúvidas. Opta-se pelo mais barato e como reparo, tenta-se indenizar uma vida perdida com valores in- tangíveis principalmente para os seus familiares. O rio Paraopeba tem cor de sangue e a sua artéria principal carrega a certeza de morte a partir de Brumadinho. Segue sem vida se não mais respira. Cadê o peixe que estava aqui? O meu amigo que morava lá? Casas vazias transbordam dor. O que nos resta é o resto de um amargo indigesto. Por que aqui ficamos? Temos como missão honrar os sonhos daqueles que partiram. Dividir a dor com seus amigos e familiares. Não podemos deixar que o sabor da morte nos alimente no café da manhã e nas refeições dos nossos sonhos de todos os novos dias. Nada é por acaso e se sofre- mos uma das mais dolorosas tragédias sejamos mais resilientes do que a dor, mais fortes do que o desespero, mais solidários em nome do amor. Seremos maiores do que tudo reestruturando pessoas e a cidade desse povo que sempre teve no peito, a nobre grandeza de ser simples. Quanta solidariedade, quantas doações recebidas por pessoas que nunca tiveram Brumadinho em seu mapa e hoje a carregam-na no coração. Quantas mãos estendidas, quantos gestos de grandeza por um povo que a felicidade foi sempre a moeda de troca, nas suas casas, ruas e cantos de versos e prosas. A partir de ag- ora incluiremos alguém mais em nossas preces. Quem partiu deixou um legado e será sempre lembra- do. Vamos construir um memorial de Brumadinho em homenagem àqueles que nos deixaram sem se despedirem. Vamos mostrar a força do nosso povo, nossa gratidão aos bombeiros, voluntários, nos- sos amigos que se prontificaram a nos ajudar sem qualquer restrição.

As manhãs brumadinenses, silenciosas de outrora, agora são acordadas por helicópteros buscando vidas que perdemos. Quando voltam trazem notícias que jamais desejaríamos receber. À noite conto estrelas. Tento homenageá-las num verso reverso de uma crônica. Tento fazer-me feliz. Não perdi as esperanças de levar aos brumadinenses através desse veículo, solidariedade, carinho. Minha oração do dia a dia tem mais uma Ave Maria. É um gesto de carinho especial “in memorian” aos brumadinenses de feitos ou de fato, que se tornaram estrelas no céu dessa cidade. Fênix ressurgiu das cinzas. Nós ressurgiremos da lama. Esquecer tudo isso não é fácil. Perdemos de muitos, a agradável presença física, mas, nunca os valores deixados por suas existências. O céu da nossa cidade tem mais um monte de estrelas recentes. Foram embora daqui e lá em cima ficaram. Pensamos ser algo fora do tempo. Nada sabemos ou achamos uma resposta a contento. Aqueles que se foram, nos deixaram luzes para nos guiar rumo a novos caminhos com toda lucidez. Seguiremos! Todos, sempre juntos estaremos. Não se separa amor e dor, origem e a inevitável consequência. Não separo das manhãs sem sol, lágrimas de brumas de um coração genuinamente, Brumadinho.