/Águas de março em Brumadinho

Águas de março em Brumadinho

O mês de março nos fez lem- brar a clássica música de Tom Jo- bim, “Águas de Março, cujo refrão nal diz o seguinte: “São as águas de março fechando o verão e trazendo a promessa de vida em seu coração”.

De fato estas águas, mais uma vez, fecharam o verão. Só não sei se estas águas trouxeram tanta promessa de vida em Brumadinho ou no restante do mundo.

No dia 25 completaram-se dois meses desde o crime da Vale em Bru- madinho que matou cerca de 300 pes- soas, além de desestruturar a rede econômica e produtiva da região isolan- do várias regiões da sede do município.

Para marcar esta data a população e os vários movimentos populares do município ou instituições que apóiam a luta das vítimas desta tragédia aproveita- ram para publicamente e exigir da Vale as medidas de compensação a todos que foram atingidos por este crime, se- jam as pessoas, o município e o meio ambiente, a m de evitar que aconteça o mesmo que aconteceu em Mariana onde a Samarco, da qual a Vale faz parte, não pagou sequer as multas co- bradas pelo poder público e tampouco reassentou a população desalojada pelas lamas da barragem do Fundão.

Estas manifestações e a organiza- ção ordenada destes movimentos são fundamentais para evitar que a mesma comédia embromatória encenada pela empresa em Mariana não se repita em Brumadinho, não obstante o formidável elenco de advogados que irá cuidar de sua defesa e alegar que tudo não passou de um simples acidente no percurso em suas atividades que geram empregos e riquezas para todos, como repete ad náusea em sua peça promocional “Os reinventores” que estava disponível na internet dali foi estranhamente reti- rada depois do que aconteceu na bar- ragem da Mina do Córrego do Feijão.

Para não repetir em Brumadinho o que aconteceu em Mariana, isto de- penderá muito da convergência da ação coletiva e da união de esforços da ação solidária mobilizada e or- ganizada da opinião pública local e nacional através das mídias conven- cionais ou digitais e das entidades de direitos sociais e órgãos públicos.

Quanto às águas de março do mundo, a ONU comemorou mais uma vez o dia 22 de março, o Dia Mundi- al da Água, que foi por ela instituído.

Infelizmente, os diagnósticos fei- tos até agora sobre a água no planeta e no Brasil não são alvissareiros trazendo pouca alegria para os nossos corações.

Dados da Fundação SOS Mata Atlântica indicaram a crescente de- gradação dos principais rios brasileiros em um total de 220 rios de 17 abran- gidos pelo bioma da massa atlântica, mostrando que 74,5% dos pontos moni- torados estão com qualidade precária. As águas dos Paraopeba e Rio Doce apresentaram um grau extremo de de- gradação por causa da lama tóxica que escorreu das barragens de rejeitos do Fundão, em Mariana, e da Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, em 2015 e 2019, respectivamente.

Ademais, todos os rios avaliados pela SOS Mata Atlântica sofrem com a falta de saneamento ambiental, trata- mento de esgotos, mau uso do solo nas áreas urbanas e rurais, uso indiscrimina- do de defensivos e fertilizantes químicos e por desmatamento que leva a erosão e ao agravamento dos impactos do clima.

Isto suscita também a grave questão de que as nossas políticas públi- cas para scalizar, regular e monitorar o uso e o impacto do uso da água a favor do interesse público e do equilíbrio ambi- ental na perspectiva da sustentabilidade capengam já há muitos anos no Brasil.

Ademais, falta ao poder pú- blico, a sociedade e a muitos setores econômicos a consciência sobre o uso desordenado que fazem da água igno- rando o fato de que no futuro podemos pagar um preço muito alto por isto, re- iterando o efeito bumerangue citado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck (1944+2015) para explicar os efeitos da tecnologia e da técnica em nossos modelos de desenvolvimento. Ou seja, se por um lado a técnica e a tecnolo- gia trazem melhoria sobre as nossas condições de vida, por outro lado, elas poluem o ar, á água, afetam o equilí- brio climático e comprometem nos- sas condições de existência no planeta obscurecendo o nosso futuro. Todos sofrem indiscriminadamente, embora a população mais pobre e trabalhadora do planeta seja mais afetada, como mostram os rompimentos das barragens do Fundão ou do Córrego do Feijão.

Apenas para se ter uma pálida idéia deste efeito bumerangue no pla- neta, lembramos que temos pouca con- sciência de como a água está presente em milhares de produtos que utilizamos diariamente em nossas vidas. Segun- do Wagner Cunha Carvalho, diretor- executivo da W-Energy e membro do Ivepesp (Instituto para a Valorização da Educação e da pessoa no Estado de São Paulo), para se fazer uma única folha de papel A-4, por exemplo, são necessários 10 litros de água. Já um au- tomóvel requer 400 mil litros e que, para se produzir um quilo de carne bovina gasta-se cerca de 17 mil litros de água.

Ainda segundo esta fonte a in- dústria é responsável por 22% do con- sumo mundial de água enquanto o setor que mais a consome é o da agricultura (70%) enquanto as residências, escolas e hospitais são responsáveis por 8%.

O problema é que a demanda por água, segundo a ONU, só cresce por causa do aumento populacional e da mudança nos padrões de consumo, en- quanto a degradação ambiental torna os recursos hídricos cada vez os torna me- nos disponíveis tornando o futuro pou- co promissor, principalmente diante do crescimento desta demanda pre- visto pela ONU de 20% a 30% ao ano.

Isto nos leva a concluir que não bastam fazer belas campanhas do uso correto e econômico da água apenas nas residências ( car menos tempo no banheiro, usar menos água na la- vagem da louça, entre outras coisas), mas, fundamentalmente, fazer com que os setores que mais a consomem e mais a degradam, adotem medi- das e cazes sobre o bom uso publico deste precioso mediante regulação feita através de políticas públicas.